Oração Discursiva (A Dificuldade de Orar)

Entende-se por oração discursiva, uma oração na qual predomina a reflexão ou consideração de algum mistério ou de alguma verdade da fé. “Discurso” era o vocábulo antigamente usado para designar o processo de raciocínio pelo qual se chega à verdade gradualmente – passo a passo -, como em qualquer demonstração euclidiana.

Poderia chamar-se “intuição”, à ação oposta do entendimento através da qual o espírito apreende uma verdade de relance ou porque é evidente por si mesma – “o todo é maior do que a parte”, por exemplo- ou, num sentido menor e restrito, porque uma longa experiência lhe tornou muito familiares todos os passos da argumentação que a ela conduz.

Todos, por exemplo, vêem os “axiomas” de Euclides por intuição, enquanto muitos dos “teoremas” são tão familiares para o professor que se pode já dizer que os vê por intuição. Introduz-se aqui o termo “oração discursiva” propositadamente. No sentido estrito da palavra, “aneditação” aplica-se ao discurso do espírito, com actuação concomitante da imaginação e da memória, e apenas a isto. Como, no entanto, em muitos ambientes religiosos se dá o nome de meditação ao exercício em que um determinado tempo do programa do dia se destina à oração mental, a palavra é com frequência aplicada a qualquer forma de oração mental. Mesmo que uma pessoa se eleve aos cumes da contemplação, diz-se que está a fazer a sua meditação.

Este costume tem as suas desvantagens ; apropria-se duma palavra muito útil que há-de ser aqui substituída por “reflexão” ou “consideração”, e leva os que tomam o termo à letra, a julgar que a essência do exercício da oração mental reside nas considerações.

Ora, na verdade, o fato é que não há oração de verdade até que a alma comece a produzir “atos” ou “afetos”. Nunca se insistirá bastante nisso. A finalidade da consideração, reflexão ou “meditação”, no seu sentido estrito, é apenas conduzir a alma a produzir atos. Tem ainda outros efeitos, que consideraremos mais adiante, mas logo que surgem os atos, a sua função está cumprida e deve por-se de parte até que a alma não possa já continuar a fazer atos ou, por outras palavras, não possa já continuar, de um ou outro modo, a falar com Deus, porque nisto é que consiste realmente a oração. Se se verifica que esta conversa com Deus é possível logo ao princípio do tempo de oração, não devem tentar-se considerações enquanto subsiste o nosso diálogo com Deus, mesmo que implique o fim da reflexão.

Como, no entanto, não é este o caso corrente, pelo menos no princípio, qualquer método de reflexão poderá ser muito útil.
A bibliografia sobre este assunto é abundante e a maioria das pessoas estão a par da doutrina comum, pelo menos até certo ponto. Numerosos autores esboçaram, expuseram e desenvolveram com mais
ou menos detalhe um «método» que, nas suas linhas essenciais, está em geral ligado estreitamente com o usado por Santo Inácio nos seus célebres «Exercícios Espirituais». O tema da meditação, dividido em «pontos», é preparado na noite anterior, e determinam-se as conclusões principais, atos, petições e resoluções a que se há-de chegar. Quando chega o tempo da oração, começa-se o exercício pondo-nos
na presença de Deus; há alguns prelúdios para fixar as faculdades por meio duma «composição do lugar»,etc. e algumas petições iniciais ; toma-se o primeiro ponto, e a imaginação e a inteligência aplicam-se-lhe metodicamente ; formulam-se certos atos ; depois procede-se de forma idêntica com um segundo ponto e, talvez, com um terceiro.

Uma vez feitos os atos, as petições e as resoluções determinadas com antecedência, bem como outras que se tenham apresentado no decorrer do exercício, a oração termina com um «colóquio» ou numa conversa com Deus ou com algum dos seus santos e uma curta ação de graças, à qual se acrescenta um exame do modo como se procedeu no exercício. Pode recolher-se algum pensamento para tê-lo à mão durante o dia, a fim de renovar na alma os efeitos da meditação.

Para quem tenha usado um destes manuais de oração, que por vezes estabelecem o plano com grande
detalhe, todo este esquema é familiar, e não vale a pena tratá-lo aqui mais detidamente. Quando se segue um método deste género, por certo há-de dar resultado, e constitui um modo muito útil de ajudar o principiante nas suas primeiras tentativas de oração mental. As numerosas almas que podem segui-lo, não precisam dos nossos remédios, mas é aconselhável preveni-las de que devem estar prontas a modificar o método, caso deixe de ser-lhes proveitoso, e pô-las em guarda contra o erro que se pode cometer com uma noção errada da natureza essencial da oração, de julgar que a reflexão é a oração, e, consequentemente, de não guardar tempo bastante para formular atos e conversar com Deus.

Texto retirado do e-book: A Dificuldade de Orar

 

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